Na aula de revolução.*
“No quarto desmascaramento, indiquei a singular dupla estrutura do saber marxista: é um composto de uma teoria emancipadora e de uma teoria reificadora. A reificação caracteriza aquele saber que aspira a dominar as coisas. Nesse sentido, o saber marxista era desde o início um saber de dominação.
(…)
Foi desde sempre um diktat demasiado rigoroso da “linha justa”. Desde sempre, destruiu irascivelmente toda e qualquer alternativa prática. Desde sempre, declarou à consciência das massas: «Sou o teu mestre e o teu libertador, não terás outro libertador senão eu! Toda e qualquer liberdade que vás buscar a outro lado é um desvio pequeno-burguês».
(…)
Marx transmutou-se em professor histórico-lógico e em protector do proletariado, que identificava como o aluno predestinado da sua teoria. Queria tornar-se o seu grande libertador, intervindo como professor do movimento operário na marcha da história europeia.
(Stirner representava nada mais do que a alternativa lógica e estratégica à solução marxista).
A célebre obra póstuma Ideologia Alemã é, em grande parte, um ataque contra Stirner, que Marx e Engels conduziram com uma verve nunca utilizada relativamente a um só pensador.
(…)
Stirner pertence, tal como Marx, a essa geração da Jovem Alemanha que, no clima da filosofia hegeliana, com a sua formação na reflexão subversiva, desenvolvera um faro extraordinário por tudo o que «se passa na cabeça».
(…)
Digamos cruamente: na cabeça dos seres humanos trabalham programas de pensamento e de percepção que são historicamente formados e que «mediatizam» tudo o que vai do exterior para o interior e do interior para o exterior. O aparelho humano do conhecimento é, de certa maneira, um relé interior, um posto de comando, um transformador, onde são programados esquemas de perceção, formas de juízo e estruturas lógicas. A consciência concreta nunca é algo de imediato, é mediatizada pela «estrutura interna».
Por princípio, a reflexão pode assumir três atitudes relativamente a essa estrutura interna recebida: pode tentar escapar-lhe «desprogramando-se»; pode mover-se nela tão desperta quanto possível; e, enquanto reflexão, pode abandonar-se-lhe, apostando na tese segundo a qual a estrutura é tudo. (…)
A ideia de Stirner é evacuar muito simplesmente a cabeça de todas as programações estranhas. (…). Stirner visa libertar o seu próprio interior da alienação. O elemento estranho instala-se em mim; reconquisto-me a «mim próprio» expulsando o elemento estranho. É possível ler centenas de páginas em que Marx e Engels se enervam ante esta ideia no fim de contas simples.
(…)
Muito cedo, o mais tardar desde a sua polémica contra Stirner, surge no pensamento de Marx uma tendência para, quase na atitude de um jesuíta da revolução, ele próprio se prender ao processo da evolução histórica, que ele julga poder conhecer tanto como dominar. A teoria marxista espera aceder à dominação estabelecendo o sujeito da teoria como função da evolução. Julga poder conseguir dominar a história por auto-reificação. Fazendo-se instrumento do pretenso futuro, pensa poder fazer do futuro o seu próprio instrumento.”
Peter Sloterdijk, em Crítica da Razão Cínica.
*
Ó amigo, afinal há amigos.
Tenho ouvido falar muito de falta de amizade. Alguns dos meus amigos lamentam a perda de convivência, e dizem que já não os há como antigamente. Para tentar ajudar, pensei no que poderia estar a acontecer. Pouco tempo? Demasiada vida digital? Esvaziamento dos espaços de socialização? De um olhar continuado, começou a emergir um padrão. Todos desprezam de alguma forma a amizade que se lhes oferece. E, quando surge uma no caminho, apressam o passo, porque não é nada daquilo que querem. Queriam outros amigos, ainda que nem conheçam aqueles com quem se cruzam. Agora, quando vêm com essa ladainha, pergunto-lhes se acreditam no acaso. Se é espectros que procuram, por que haveriam de encontrar amizade?
Constelação.
A «ideia» existe apenas se plasmada numa «obra», num artefacto ou objectos que sendo heteróclitos se acrescentam ao real, e este fica forçado a responder-lhe, pois nada acontece sem deixar traços. Como se refere o poeta Eugen Gomringer, a constelação é um «arranjo» que cria um «campo de forças». Numa frase: «A cada constelação algo novo vem ao mundo, cada constelação é uma realidade em si e não um poema sobre alguma coisa. A constelação é um desafio, é também um convite». Enquanto novo objecto, ao entrar no real origina uma constelação de forças, provocando tensões e rearranjos novos cuja disseminação é indecidida e incontrolada: nenhum marketing ou poder a pode controlar. Ela é, sobretudo, um convite, uma dádiva, que se pode aceitar ou não, mas não se pode evitar."
José Bragança de Miranda, em Constelações.
Ensaio sobre a loucura.
A diferença entre os loucos do manicómio e os loucos que estão cá fora é uma questão de poder e dimensão. Ambos atacam traiçoeiramente aqueles que tocam nas suas ideias fixas, mas os primeiros, que estão dominados pelos segundos, ocupam menos espaço.
Hierarquias sociais.
Os arrumadores de carros aqui, na universidade, estão sempre à espera da moedinha. Os meus amigos deputados estão sempre à espera da noticiazinha. Os primeiros dizem que é para ajudar a avó doente, os segundos dizem que é para ajudar todas as avós doentes deste país.
Introdução
Antes de mais, gostaria de dizer-vos que vim aqui falar bem de todos, e criticar ninguém. Pretendo apenas apreciá-los, etilizar com os conceitos, e, se tiver sorte, desconstruir e criar outros. Se pensar diferentemente, acrescentarei tão somente um ponto, outra perspetiva, e não farei uma conta de subtração às ideias dos outros. Procuro uma versão que tudo acolhe – e sabem bem o que acontece quando nos dão abrigo.
Também não desejo demonstrar inteligência ou impressionar. Venho apenas para a festa, dançar com as imagens, brindar aos encontros e, se necessário, curar a ressaca dos excessos no dia seguinte. Portanto, o mais importante será evitar os fura-festas, os sem potência de criação, os que encerram tudo em caixas, e, colocando-se a um canto, criticam os movimentos dos dançantes, sem alguma vez conseguirem dar um passo de Twist. Dizem que as roupas não são adequadas, que deveríamos dançar mais depressa ou devagar, e que os gestos são demasiado tímidos ou exuberantes. Acontece que as danças tímidas são-no maravilhosamente, e as exuberantes também. O que interessa é ir para a pista, abandonar os recantos escuros dos encerramentos e envolver-se em todas as intensidades da luz. E se um dia o corpo deixar de mexer ou emperrar-se, dança-se como um robot. Ou inventam-se danças ciborgues e organizam-se outras festas. Porque as há infinitas. Basta ter curiosidade e perguntar: onde e com quem posso dançar?
Originalidade.
As pessoas que vivem no luxo e no ócio têm três características fundamentais. Primeiro, são educadas desde cedo a obedecer a pessoas, a figuras religiosas, ou a ideias. A segunda é que se ocupam primordialmente dos amores. Como têm quem lhes faça os penosos serviços domésticos, ficam com imenso tempo disponível para a profissão do exercício das paixões. Terceiro, dedicam-se afincadamente ao cultivo da elegância. Para se distinguirem dos vulgares comuns, criam detalhadas regras para o vestuário, para o corpo, e para a alma. Ambas podem rir, mas do corpo do pobre sairá uma risada estridente e do corpo do rico sairá uma gargalhada requintadamente disciplinada. E o seu desejo mais ardente é a originalidade. Precisam de ser diferentes dos outros.
Como gosto de ver toda a gente feliz, encontrei uma solução para ajudar a aquecer estas almas douradas. Foi bastante dispendiosa mas tem tido um efeito surpreendente. Comprei uma impressora 3D e, sempre que estes seres começam a trotear magníficos nos seus cavalos invisíveis, imprimo uma estátua personalizada e ofereço-lhes. Agora, que estou a ficar famosa como fabricante de estátuas, vêm até pessoas do estrangeiro para me pedir uma. Cercam-me a casa, tiram-me fotografias, enviam-me cartas a dizer que uma estátua lhes pode mudar a vida. Todos querem uma estátua de si próprios. Que aborrecimento.
Honraria.
Biografia de metade dos escritores portugueses: “Anda um homem* a vida toda a tentar ser importante, e diversão, que é boa, nada.”
Como gosto muito de dar conselhos, vou oferecer-vos mais um: honrarias são miséria para o espírito. Quanto mais as temos, menos nos sentimos. Se não é por prazer ou dinheiro que escrevem, deixem-se disso.
Em vez de andarem à esmolinha de venerações, gastem o tempo a fazer coisas que deveras gostem, e tratem as pessoas genuinamente bem. Depois, enviem-me uma carta de agradecimento a dizer “Ah! Afinal, era isto!”, que não lerei, porque o que me diverte é dar conselhos, não que os ouçam.
*Eu sei, eu sei, mas não ficava bem.
A piscina.
Chega-se a uma idade em que se pode falar de tudo, por isso, vou escrever sobre piscinas. Aprendi a nadar na piscina dos meus avós maternos. Ao ver-me continuamente agarrada às beiras, com receio de afogar-me, alguém aproveitou uma saída e empurrou-me. Atirada para uma parte sem pé, comecei a esbracejar e a gritar pedidos de ajuda, que foram ignorados. Em desespero e desamparada, comecei a nadar. Nessa lembrança, deparo que foi assim que aprendi quase tudo. Também me atiraram à piscina dos pais, dos avós paternos, e noutras fora de casa. Agora, podem atirar-me para onde quiserem. O que mais sei fazer é nadar.
Despenteadas.
“Ser punk é como ter ido a uma determinada universidade. Define a forma como se aprendeu a olhar para as coisas.”
Afinidades.
”Aprendi desde cedo a viver nas margens, num certo isolamento, salvo pelo quietismo do rio e a convulsão dos livros, os únicos lugares onde eu me sentia bem.
Já nessa altura era um spinozista antes de o ser, queria encontrar toda a alegria possível.
Depois do 25 de abril a Escola de Cinema fechou durante dois anos, portanto nem cheguei a entrar. Meti-me na política. Militei em pelo menos três partidos de extrema-esquerda. Partidos pequenos, mas asfixiantes, e fui sendo expulso de todos. Uma dessas expulsões foi “por desvio teoricista”, porque organizei umas leituras coletivas de livros que não eram bem vistos… de outro fui expulso porque dormi enrolado na bandeira do partido [risos]. Era tudo tão absurdo, e eu que não sou capaz de me entregar absolutamente a nada como era exigido nesses tempos… nunca consigo aderir totalmente a nada, não consigo evitar uma certa distância que me tornava uma pessoa “estranha” nesses ambientes fechados. Mas o que podia fazer se havia em mim essa fissura, essa incapacidade de adesão absoluta ao que quer que seja?
E fui-me afastando da Sociologia, porque é uma ciência que só pode funcionar a partir de grandes abstrações, visões totalizadoras da vida e dos problemas. Parte do princípio de que podemos compreender a totalidade do mundo a partir de uma teoria ou de uma série de conceito e sempre achei essa atitude uma grande arrogância. Acredito mais no poder inventivo da poesia.
A grande ilusão dos modernistas assentava na ideia de que através dessas abstrações poderiam chegar ao Real. Mas “o Real” é aquilo que excede tudo. Por mais muros que criemos historicamente, reais ou teóricos, tudo rumoreja por todo o lado, tudo está em permanente convulsividade.
Já dizia o Lacan, “o Real é o que estraga a festa”.
Porque o Capitalismo, como qualquer outra teoria, não explica tudo ou projeta uma lucidez ilusória.
Claro que, em teoria, tudo aquilo faz sentido, mas a prática da vida humana desmente sempre a perfeição das teorias, porque são sempre uma abstração.
Capitalismo como teoria parece-me manifestamente insuficiente.
Cada ato urgente que exige uma resposta e essa resposta não está pré-determinada por uma posição “imutável” e absolutamente certificada, tem que resultar de uma decisão livre. (…) uma falsa coerência, que nos obrigaria a ser coniventes com tudo seja e esteja decidido pela “direita” e a “esquerda”, consoante os gostos. Ora, esse princípio de coerência é a base da indignidade em política.
Sempre procurei pensar a an-arkhé — que não se pode confundir com o que se tornou o Anarquismo no qual não me revejo.
Ora quem está mergulhado na vida até ao pescoço sabe que nenhuma teoria ou abstração servem.
Não existe “sujeito”, existe sim uma trama de ligações inscritas sobre a carne e as formas, que são coisas muito mais fortes do que “o sujeito”. Tudo que existe é um conjunto de relações formadas por expansões do corpo.
O Real está a ser afetado por cada gesto ínfimo, por cada livro obscuro que é publicado, por cada palavra.
Vivemos num mundo movido pela força do acidente, da transformação, da metamorfose, o que nos indica que qualquer estrutura que vise controlar ou estabilizar o Real está condenada ao fracasso.
A ideia que o Platão desenvolve no livro O Banquete é fundamental: é a ideia de um mundo regido por Eros, deus das ligações, que se opõe ao caos e à desligação.
No princípio não era o verbo, eram as imagens.
Na visão comum considera-se que técnica é uma invenção humana, que por isso mesmo está ao nosso alcance, que a dominamos e podemos aplicar com segurança. Mas existe um elemento de exterioridade que excede as formas históricas da “técnica, as nossas teorias, laboratórios e máquinas. Como sabiam os antigos, pense-se em Aristóteles, a técnica é uma mimesis da Techné da natureza, da “Physis”, que conseguimos replicar, extrair, pôr a funcionar no mundo histórico. Veja-se o caso do espelho. O espelhar está já em qualquer superfície líquida, nas pedras polidas, mas fixá-lo num “espelho” é algo de novo, acrescenta algo que não existia, mas que é exatamente o espelho.
E fomos aprendendo a duras penas como a ilusão de controlar a História e controlar a Natureza está a levar-nos à beira da extinção. Precisa-se da ilusão para se poder viver, mas viver na ilusão do controlo deixa-nos impreparados para o pior. Na verdade, temos de partir dos problemas, um a um a um, e responder da maneira mais lúcida e potente possível.
A Técnica é um conjunto de ligações.
A Técnica é um conjunto de ligações, por isso o que fazem as técnicas matemáticas e digitais é explorar e intensificar a nossa potência de ligação. Por detrás da intensificação da nossa relação com o telemóvel ou com as redes de computadores está a potência e a complexidade das nossas ligações uns com os outros. Dada a infinidade das máquinas que se espalharam pelo mundo, autores como Marx e Heidegger tentaram reduzir a “técnica” à “tecnologia”, acreditando que assim poderiam circunscrever a sua força. Mas vivemos no delírio de grandiosidade de achar que as máquinas que extraímos da Natureza representam o nosso domínio sobre ela. Cada máquina que extraímos acrescenta, modifica o mundo, mas no Ocidente estivemos sempre presos a uma visão instrumental que diz que as máquinas são meros utensílios. Mas veja-se como o automóvel, como a técnica nos escapa sempre: é fácil aprender a conduzir um carro, a “dominar” a máquina, nas não somos capazes de resolver os problemas de trânsito, os acidentes, a poluição… não da mesma maneira. A ideia de instrumento que punha tudo à nossa disposição deixou de funcionar.
Daí a importância de não confundir “máquinas” com “técnica”.
Acredito que precisamos de aprender a amar as máquinas, desenvolver com elas uma “filia”, uma amizade.
Mas o que é o Apocalipse se não uma forma de impedir os outros de pensar, pois o medo não permite o diálogo, deixa-nos desmunidos perante as mudanças do Real.
Um óbice evidente é fazer a IA uma questão terminante, exigindo ser-se a favor ou ser contra. A IA e as suas máquinas relacionam-se com muitas outras, como as ligadas à energia ou à computação, bem como dispositivos históricos ligados ao trabalho, à guerra, à invenção, às artes, etc. É da criação de combinações mais potentes que tudo depende e é preciso intervir sobre as suas ligações, lutando contra as mais perigosas, as mais indignas, em favor de outras formas mais livres, justas ou belas.
A obra de arte é sempre uma forma de abertura, porque tudo o que acontece tem a potência de transformar, de alterar o Real, seja em grande ou pequena escala. Se toda a coisa adicionada ao mundo tem um poder de alteração a arte é, acima de tudo, um trabalho que tem a alteração como substância necessária. Daí a necessidade libertá-la dos moralismos e da submissão a programas, pois é única forma de ação onde tudo pode ser possível.
Para mim é importante não ser abstrato, nem essencialista, nem totalizante.
Como disse Giordano Bruno, “pensar é especular com imagens”.
Para mim a constelação parece-me melhor porque respeita a empiricidade selvagem do real, consegue articular conceitos, objetos e imagens a partir da “imagem” que constitui, e que é sempre nova e única. A constelação é aquela que mais está atenta a algo que é essencial que são as ligações.”
José Bragança de Miranda, Entrevista de Joana Emídio Marques, no Observador.
O prazer do texto.
Mal abro as hostes do meu e-mail, começam logo a brotar parvoíces. Como a resposta a um deles é serviço público, e de outro modo não responderia, vou colocá-la aqui. Pode ser que tenham a mesma dúvida.
“Ao que parece, não sabe muito bem a diferença entre hipersexualização e liberdade sexual. Aqui vai uma pequena ajuda:
Visto-me de forma sexy (seja lá o que isso for), apesar de sentir-me desconfortável, para me integrar socialmente e porque acho que esse é o meu valor de troca.
VS
Visto-me de forma sedutora (seja lá o que isso for), porque a encenação aumenta a minha potência de diversão.
O meu objetivo é agradar e dar prazer.
VS
O meu objetivo é partilhar e ter prazer.
Reproduzo a estética pornográfica nos meus atos sexuais porque não sei distinguir cinema de realidade.
VS
Vejo pornografia porque me excita, mas admito que tenho péssimo gosto e que a maioria dela reproduz estereótipos de gente néscia.
Não compreendo a diferença entre um órgão sexual e um ser humano inteiro.
VS
Fiz um trabalho na faculdade sobre a Jouissance do Lacan e o Corpo Sem Órgãos do Deleuze e do Guattari.
Tenho a certeza que todas as mulheres têm algo em comum.
VS
Admito que não me conheço, quanto mais ter a pretensão de conhecer todas “as mulheres”.
Tenho objetivos de performance sexual.
VS
Percebo que a cama é mais uma pista de dança do que um ginásio.
Faço intervenções plásticas para sentir-me mais desejável.
VS
Compro um livro sobre a semiótica do desejo.
Acho que o órgão sexual feminino é uma cavidade e nunca ouvi falar de vulvas.
VS
Sei o que é um clitóris e o que fazer com ele.
Tenho a Fundamentação da Metafísica dos Costumes na mesinha de cabeceira.
VS
Leio Bataille para me embalar antes de adormecer.
Instalei luzes fluorescentes em toda a casa para ver tudo muito bem.
VS
Até na cozinha tenho candeeiros com regulador de intensidade.
Chamo frígida a uma mulher que não quer fazer sexo.
VS
Compreendo que há muitos motivos para alguém não querer fazer sexo, sendo a falta de interesse em mim um deles.
Considero-me a Madre Teresa por dedicar muito tempo aos “preliminares”.
VS
Sei que é pateta chamar “preliminares” à parte da estimulação feminina porque ela JÁ é o ato sexual, não a entrada para o prato principal, que seria o meu prazer. Inclusivamente, costumo dizer “Aquela mulher é excelente! Até insiste em satisfazer-me depois de se vir!”
Sei que “Come as you are” é uma música dos Nirvana, mas considero o meu pénis ou seios demasiado pequenos.
VS
Li o livro homónimo da Emily Nagiski e descobri que os orgasmos acontecem no cérebro, não nos genitais.
Comporto-me como um produto sexual, um verdadeiro macho, e sigo todas as instruções das revistas masculinas.
VS
Divirto-me, apenas.
Sou obcecado por sexo.
VS
Sei que há muitas formas de ter prazer na vida, sendo o sexo uma das melhores.
Sou um burgesso.
VS
Sou alguém com quem vale a pena copular.
Funeral.
Só para dizer que hoje não morri na auto-estrada por um minuto. Foi um espectáculo de guinadelas, eu a andar de uma ponta da estrada até à outra, em ziguezagues incontroláveis. Os quilómetros, para esvaziar o depósito, marcavam 666. De um momento para o outro, o carro parou, pelo que me encontro na poltrona do lado direito da minha sala a escrever este texto comovente. Se morresse, isto deixava de ser divertido, por isso, parem lá com os bruxedos. Se, entretanto, for desta para melhor, não se esqueçam de pôr a tocar Dead Kennedys a caminho do cemitério. Pode ser que ainda oiça alguma coisa.
Questionário de Proust.
Aqui vai a resposta:
Ideia de felicidade plena
Como disse o Pasolini, “I don't believe we shall ever again have any form of society in which men will be free. One should not hope for it. One should not hope for anything.” O mesmo deve aplicar-se à felicidade plena.
Qual é o seu maior medo?
Não poder desobedecer.
Qual a característica que mais detesta em si mesma?
A autoconfiança traz-me alguns dissabores, mas não consigo detestá-la. Geralmente, gosta-se mais das pessoas inseguras e obedientes.
Qual a característica que mais detesta nos outros?
A maldade.
Que pessoa viva mais admira?
O Professor José Bragança de Miranda.
Qual é a sua maior extravagância?
Camisolas de caxemira.
Qual é o seu estado de espírito mental?
Acelerado.
Em que ocasiões mente?
Para não ferir pessoas inocentes.
O que gosta menos na sua aparência?
Não mudava nada.
Que pessoa viva mais despreza?
Os fúteis.
Qual a característica que mais aprecia em homens?
Como disse o Deleuze, numa entrevista que deu à Claire Parnet, “as pessoas só têm charme na sua loucura. O verdadeiro charme das pessoas é aquele em que perdem as estribeiras, quando não sabem muito bem em que ponto estão.”
Qual a característica que mais aprecia em mulheres?
A potência.
Que palavras ou frases utiliza excessivamente?
O pronome que e a frase “a minha vida é um fado, e o fado é a minha vida”, que ouvi num concerto punk.
O quê ou quem é o maior amor da sua vida?
O meu marido.
Onde e quando foi mais feliz?
A ler.
Que talento mais gostaria de ter?
Tocar baixo como o Klaus Flouride.
Se pudesse mudar alguma característica em si, o que seria?
Ficaria satisfeita com pouco.
Qual considera ser a sua maior conquista?
Trocar a riqueza pela liberdade.
Se morresse e voltasse, que pessoa ou coisa seria?
O Champion Jack Dupree, sendo que nunca gostei de drogas e já bebi álcool suficiente para as próximas três vidas.
O que mais valoriza nos seus amigos?
O facto de gostarem de mim sem maquilhagem.
Quem são os seus artistas favoritos?
Famosos, o Kandinsky (nome que dei ao meu cão, num momento de lucidez) e a Paula Rego, mas gosto de encontrar beleza nas galerias mais inesperadas.
Quem é o seu herói de ficção?
O Ulrich, d´O Homem sem Qualidades.
Com que figura histórica mais se identifica?
Virginia Woolf.
Quem são os seus heróis na vida real.
Nisso, sou stirneriana.
Quais sãos os seus nomes preferidos?
Eduardo e Pedro.
De que é que menos gosta?
Manipulações deliberadas.
Qual é a sua aversão de estimação?
Pessoas caridosas.
Qual é o seu maior arrependimento?
Ter ouvido os conselhos que me deram.
Como gostaria de morrer?
De overdose. Seria o momento ideal para todos os excessos.
Qual é o seu lema de vida?
Amar e desobedecer.
Qual considera ser o seu maior infortúnio?
A minha infância.
Como gostaria de ser?
Sou o que essa criança desejou ser.
Qual é a sua asneira favorita?
Fuck.
Onde gostaria mais de viver?
No inverno, Porto, Lisboa e Paris. No verão, África, Mediterrâneo e Estados Unidos.
Qual é o bem mais valioso que tem?
Liberdade.
Qual a sua ocupação preferida?
Aprender.
Qual é a sua característica mais assinalável?
No outro dia, escrevi a seguinte frase no meu bloco: “Não aconselho o meu caminho a ninguém, mas é o melhor caminho”.
Se Deus existisse, o que gostaria que ele lhe dissesse?
Esta é uma péssima forma de terminar.
Humanismo.
Sempre que há uma catástrofe humana, as redes sociais impregnam-se de frases muito belas. No outro dia, apareceu-me uma que me afectou profundamente: "Vejo humanos mas não vejo humanidade”. E lembrei-me logo do meu professor do secundário que uma vez me disse que devia ser “mais humana”, em resposta a uma observação minha que dizia que “não andava aqui para libertar a humanidade da opressão. Quanto muito, aliviava a dor de cabeça do meu colega de carteira porque tinha trazido um ben-u-ron.”
“Agora, aliviar todas as dores de cabeça deste mundo?”. “Mesmo que quisesse”, disse-lhe, “que não é claramente o caso, não ia conseguir, porque o que cria dores de cabeça a uns, não cria a outros. E eliminar uma causa de dor de cabeça de uns, ia dar muitas dores de cabeça a outros. Por isso, em vez de ter a pretensão de saber e querer eliminar as dores de cabeça de toda a “humanidade”, resolvo as minhas e as do colega do lado. Pode ser que outros, ao verem como resolvi a minha, resolvam também a deles, se quiserem. Valha-me obrigá-los a resolver aquilo que eu acho que são as dores de cabeça deles! Inclusivamente, professor, sei de muita gente que precisa da dor de cabeça. Li, anteontem, que há muitos escritores que não conseguem escrever sem ela. Nos dias sem dor de cabeça, vão para a praia e põem-se a namorar. Além disso, nos dias seguintes à inactividade intelectual, ficam com uma grande dor de cabeça provocada pela frustração de não avançarem no trabalho.
E quem é que define o que é ser “mais humana”? É o professor? E se eu achar que sou mais humana por não querer que todos os “humanos” sigam a minha ideia de “humanidade”?
Já o estou a ver num alto palanque a recitar o novo “código da humanidade” e a selecionar quem fica de fora das determinações específicas.“Este não é humano, este é quase humano, este é meio humano.”
Se calhar é por isso que agora vendem tantos comprimidos para as dores de cabeça. Ou porque nunca somos suficientemente humanos ou porque, digo eu, cansamo-nos de ser demasiado humanos”.
Nada a dizer.
Vim aqui dizer-vos que não tenho nada a dizer. Não tenho nada a dizer sobre os extraordinários livros que tenho lido, nem das músicas boas que tenho ouvido, nem sobre as conversas profundas que se têm desenrolado, nos sítios mais inesperados. Não tenho nada a dizer sobre o sol quente que me bronzeou a pele hoje, nem sobre o que descobri na caminhada de ontem. Também não vou dizer nada sobre o que aconteceu este fim-de-semana em Lisboa, sempre entusiasmante. Talvez pudesse dizer alguma coisa sobre as visões cinematográficas que tenho tido ultimamente, e das bandas sonoras que as acompanham. Mas também não o vou fazer. Não vou dizer nada sobre como tenho acordado, o que faço à noite, ou de madrugada. Muito menos direi alguma coisa sobre as minhas tardes, e sensações extasiantes que tenho tido no meu corpo. Não sei bem quando é que isto aconteceu, deixar de me interessar dizer. Mas tenho a impressão que foi um crescendo de prazer. Quanto menos tenho para dizer, mais já senti tudo.
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