Seriedade.
Há uma coisa que me tem intrigado ultimamente: por que é que toda a gente quer impor-me sentimentos? Querem que eu sinta temor a deus, querem que eu sinta temor dos meus pais, dos meus avós, do meu chefe, do gerente do banco, de toda a gente em geral, e delas em particular. E chamam a isto respeito. "Tens de respeitar isto, tens de respeitar aquilo." E eu fico sem perceber o que eles realmente querem. Mas parece-me que andam à esmolinha das venerações. E se eu sentisse o que me apetecesse dos meus pais, dos meus avós, do meu chefe e do homem que trata das minhas contas no banco? Porque insistem que devo sentir o que elas desejam que eu sinta e não o que eu sinto efectivamente? É que é um bocado desgastante ter que fazer uma expressão de extrema seriedade sempre que surge o burlesco na vida. Tudo é sagrado! A economia é sagrada, os mercados são sagrados, a ciência é sagrada, os princípios gerais são sagrados. E ao sagrado o que é que se exige? Submissão e devoção. O problema é que, na maior parte das vezes, é, realmente, um caso sério, mas de idiotice. Basta olhar para o lado para perceber que o século XXI, tão doente mentalmente, está cheio de gente que levou tudo demasiado a sério.
Na aula de revolução.
- No outro dia, fiz uma revolução.
- Fizeste? Onde?
- No ginásio.
- Como é que fizeste uma revolução no ginásio?
- Numa aula de grupo, levei os alunos para a rua, pus músicas de intervenção a tocar, disse para toda a gente pôr um dos braços no ar e fechar bem os punhos.
- E depois?
- Depois, tinham de caminhar.
- Assim, de braço no ar, de punho fechado?
- Assim mesmo. Alternando, claro, para ganharem músculos nos dois braços.
- Mas isso não é uma revolução. Nas revoluções, as pessoas dizem coisas. Na tua revolução só se ouve?
- Não, não. Depois, criei frases de ordem: "Abaixo o governo", " Queremos mais pão", "Queremos um futuro".
- E se alguém quisesse dizer coisas diferentes?
- Pedíamos desculpa e explicávamos muito bem a razão de todos terem que dizer o mesmo.
- E se as pessoas se recusassem a participar na aula de revolução?
- Tentava fazê-las perceber o quão burras estavam a ser e que, sem a aula de revolução, nunca conseguiriam ter os músculos que tanto desejavam. Já que falas nisso, por acaso, tive um problema nessa aula.
- Tiveste?
- Sim. Um dos alunos virou-se para todos e disse: " Vou ganhar músculos à minha maneira. Não gosto que escolham as músicas que tenho de ouvir nem as palavras que tenho de dizer".
- E qual foi a vossa reacção?
- Ficamos a olhar uns para os outros, murmuramos, e continuamos a aula.
- Ignoraram-no?
- No início, sim, mas depois pôs-se a gritar " Abaixo as aulas de revolução", como um louco. Tive de chamar o segurança.
- Feriu alguém?
- Não. Mas estava exaltado, pelo que pedi ao segurança para chamar o 112. Via-se que o senhor não estava bem. Precisava de ajuda.
- E a seguir?
- Continuamos os exercícios.
- Já pensaste como seria se tivesses mais alunos como esse?
- Felizmente, estes casos são excepções e estão controlados. Já há muitos tratamentos para o problema.
- Virginie Despentes
- Parkinsons
- Godard
- Punk
- Solidão
- Vigilância
- Escritor
- Georges Canguilhem
- Discurso Oculto
- Conformismo
- Albert Cossery
- Cesare Pavese
- Contrato Social
- Turismo
- Filosofia
- Questionário de Proust
- Infância
- Redes Sociais
- Transversalidade
- Exaustão
- Arte
- Baudelaire
- Tecnologia
- Uniformização
- Dor
- Tens de mudar de vida
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